Hevelyn Gomes Bezerra Calheiros
Utilização do resíduo de fresagem da cidade de Maceió para as camadas de pavimentação urbana
Resumo
A crescente geração de resíduo fresado de pavimento asfáltico (RFPA) em centros urbanos brasileiros, associada à necessidade de reduzir o consumo de agregados naturais e mitigar impactos ambientais, tem estimulado a busca por alternativas de reaproveitamento em obras de infraestrutura viária. No município de Maceió/AL, onde intervenções de manutenção urbana geram volumes expressivos desse material, a ausência de critérios técnicos consolidados para sua reutilização em camadas estruturais de pavimentos justifica investigações experimentais direcionadas à sua caracterização e ao seu desempenho geotécnico. Nesse contexto, o presente estudo teve como objetivo caracterizar geotecnicamente o RFPA e misturas com solo, visando verificar sua viabilidade técnica para aplicação em camadas de reforço do subleito, sub-base e base de pavimentos urbanos. A metodologia experimental contemplou a coleta dos materiais, a definição das composições e a realização de ensaios laboratoriais de caracterização física, mecânica e mineralógica. Foram avaliadas amostras de solo da Guaxuma (SG), Solo Grota do Arroz (SGA), RFPA puro e misturas solo/RFPA nas proporções de 50%RFPA/50%SGA e 75%RFPA/25%SGA. O programa experimental incluiu análise granulométrica, limites de Atterberg, índice de grupo, classificação HRB-AASHTO, forma de partículas, absorção e densidade aparente, compactação nas energias Proctor normal e intermediária, ensaio de cisalhamento direto, Índice de Suporte Califórnia (CBR/ISC) com monitoramento da expansão e difração de raios X. Os resultados demonstraram que o desempenho mecânico dos materiais foi influenciado pela composição das misturas e pela energia de compactação. No ensaio de cisalhamento direto do RFPA, foram obtidos ângulo de atrito interno de 39,88° e coesão de 29,64 kPa, indicando comportamento predominantemente friccional e potencial favorável de suporte sob tensões cisalhantes. Nos ensaios de CBR, todas as amostras apresentaram expansões inferiores aos limites normativos. Sob energia Proctor Normal, os valores de CBR foram de 4,57% para o SG, 22,2% para o SGA, 11,59% para o RFPA, 20,58% para a mistura 50%RFPA/50%SGA e 13,92% para a mistura 75%RFPA/25%SGA. Sob energia intermediária, os valores correspondentes foram 6,90%, 60,4%, 33,4%, 27,54% e 15,50%. Os resultados evidenciaram que o SG apresentou baixa capacidade de suporte, enquanto o SGA, o RFPA e, principalmente, a mistura 50%RFPA/50%SGA apresentaram desempenho mais promissor. Em energia normal, o SGA e as misturas com RFPA mostraram potencial para reforço do subleito. Em energia intermediária, o SGA, o RFPA e a mistura 50%RFPA/50%SGA apresentaram comportamento compatível com aplicação em sub-base. Nenhuma composição, entretanto, atingiu desempenho suficiente para uso direto em base. Conclui-se que o reaproveitamento do RFPA, especialmente em associação com solo adequado e sob maior energia de compactação, constitui alternativa tecnicamente viável para reforço do subleito e sub-base, contribuindo para a economia circular na construção viária, para a redução da disposição inadequada de resíduos e para a racionalização do consumo de recursos naturais.
